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domingo, 26 de dezembro de 2010

Abandonar-me-ia



"E o meu coração,
 embora finja fazer mil viagens,
 fica batendo, parado,
 naquela estação."
 Caetano Veloso

Ainda - ai!
Não havia vinda... Vai.

Ainda havia
vida, ainda,
Até que um dia, quando
Eu vinha, partia.

E já não mas a via.
Ainda caminha... Partia,
Fugia,
Abandonava-me.

Bye...


Renato Marques

sábado, 25 de dezembro de 2010

Do Coração (ou Monossílabos)


Bate
Forte
Parte
Norte
Foge
Longe.

Bate
Quase
Para
Ama
Dói
Fala
Baixo
Cala.

Vive
Forte
Parte
Foge
Ama
Fala
Baixo
Bate
Cala
Para
Morre.


Renato Marques

domingo, 5 de dezembro de 2010

Le Peti Prince









"Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo
jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa."



"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."


"Para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar."


"Nas horas graves, os olhos ficam cegos; é preciso, então, enxergar com o coração."


"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos"


"O essencial é invisível aos olhos. Quem ama vê além da aparência física e é isto que ama: a essência."


"O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."


"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... "


Antoine de Saint-Exupéry





segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Padrão!







"O que é a ética, perante a sociedade, senão um padrão de comportamento...?"
Renato Marques

Sou contra os padrões
contra os ladrões do estado
contra os padrões
do congresso do planalto
democratas, republicanos,
mensalões, manifestos,
anti-cubanos!
Sou contra os chavões
Globais,
estaduais e deputados
federais!
Aos padrões? 
Aos patrões?
somente os meus singelos
Palavrões!!!

Renato Marques

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Direito à Literatura




"No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia"
Oswald  de Andrade



Segundo Antônio Cândido "... Certos bens são
obviamente incompressíveis, como o alimento, a casa, a roupa.

Outros são compressíveis como os cosméticos, os enfeites, as roupas
extras...".

Com certeza, não é exagero considerar a leitura entre os bens
incompressíveis. Não digo apenas a leitura acadêmica ou informativa, mas
também a leitura de textos literários. Todo o ser humano tem a necessidade
de entrar em contato com alguma espécie de fabulação.

Existem vários tipos de meios que podem levar as pessoas a terem este tipo
de contato que varia desde o sonho até a tv, mas, com certeza, o livro é o
instrumento que melhor satisfaz esta necessidade que o ser humano possui.



Renato Marques

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Por um [Últra]Romântico



"Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!"
Álvares de Azevedo



Um silenciar, no coração,
Que incomoda - tal como eu sinto.
Não quero a vida, com tuas rosas,
Mas mil vezes mais, os teus espinhos.

Um descompasso, a solidão
Sem paixão que me embriague - um absinto.
Quero antes amar, sem direção,
E caminhar a um abismo.

Quero no peito a tuberculose.
Amor não é mais que doença do peito,
Sôfrega dor que corrói por dentro.

Não quero o viver sem  forte tosse.
A vida não é mais do que esterco enfeito!
Mandem a morte vir dormitar meu Leito.


Renato Marques

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O caso do vestido






— Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

— Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

— Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

— Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

— Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

— Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

— Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

— Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca:

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe.

 Mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

— Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

— Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

— Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

— Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

"Eu não amo teu marido,"
me falou ela se rindo.

"Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem."

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.



Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.



Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.




Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

"Dona," me disse baixinho,
"não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação."

"Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes."

"Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,

no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,

me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,

me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,

rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:

vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa

que recorda meu malfeito
de ofender dona casada

pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão."

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: "Mulher,

põe mais um prato na mesa."
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.







Carlos Drummond de Andrade

domingo, 19 de setembro de 2010

Desfecho













- Você voltará?
- Voltarei.
- Promete?
- Não Prometo. Não é necessário. Apenas voltarei.
- Por que não promete?
- Não me tem confiança? O que é uma promessa? Se me pede uma promessa é porque não me acredita.
- Desculpe-me, querido. É que nunca partiu para tão longe e como ficará distante por mais tempo do que de costume...

Ele a fitava rigorosamente, com um olhar frio, certeiro, mas ao mesmo tempo carregado de uma doce ternura. Enquanto ela, sôfrega, se esforçava em impedir que as lágrimas chovessem em seu rosto. Lá fora, atrás da janela, o dia triste e nublado observava os dois com olhos melancólicos. O tempo seguia a sua rota apenas dentro daquela casa, como se estivesse lutando para separá-los. Lá fora não. Tudo paralisara. As pessoas, a grama, os animais, o riacho, o entardecer.

E a vida.

O homem, seriamente, deixou que seus braços a enlaçassem, mas sem que os olhos desviassem. Ficaram ali, imóveis, desdenhando o relógio, enquanto era possível. Ela sempre melancólica; ele sempre grave, ainda que com o traço de dor na face. Um silêncio súbito pairava ao redor, observando os dois. Tudo era triste.

- Acredito em você. Sempre voltou e voltará. Sempre.
- Sempre.

Sempre.

Ela reclinou a cabeça e deixou que os lábios do rapaz fossem de encontro ao seu. Amavam-se muito, mas agora, com a dor da separação, sofriam à mesma medida que se amavam. O homem acariciou o rosto da mulher com as mãos, beijou-lhe a fronte, e partiu.

Sempre.

Ela deitou-se. Sentiu a solidão tomar conta de si. O vento dramático daquela tarde soprou pela porta para fazer-lhe companhia. Ela tremeu de frio e de tristeza. Um soluço. Não teria mais os afagos que tinha. À medida que os passos do homem avançavam pela estrada, o sol ia se despedindo, como se estivesse ditando o caminho, o destino dele.

 O mundo todo se resumiu em silêncio.


Ouvia-se apenas o som agudo das lágrimas, que pousavam no chão batido, umedecendo a terra vermelha e compondo triste sinfonia.

- Plim, plim, pilm...


Triste onomatopeia.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Suicídio





"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos 
Se eu morresse amanhã!"

(Álvares de Azevedo)


Antes da morte,
Que vida!
Devida sorte,
Maldita!
Andei sem norte,
Perdida!
Troquei por nada,
A vida.

domingo, 12 de setembro de 2010

Futuro










 "Terei um futuro?  Sem dúvida...  

    Ainda que pare de aqui a pouco... "

(Fernando Pessoa)




As linhas das palmas de minha mão não me dizem quem tu és.
Incógnita.


Caminharei, constante, passo-pós-passo,
Mas nunca poderei dizer de ti, a menos que já tenhas
Passado.


Mas, ainda assim, em mim, em nossas vidas, Guardamos
A sublime esperança, de encontrar-te atrás da cortina do
Destino.


Enquanto não vens, vou me divertindo com o presente,
Que te traz aos poucos,
Aos poucos goles, mililitros, pensando ter te 
Apanhado.


Te trago na idéia, como um ideal,
Ainda que tu sejas tão incerto, tão duvidoso
E, quem sabe, 
Trágico.






Renato Marques





terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sensibilidade




Sensibilidade é olhos nos olhos. Tudo aquilo que o coração sente e que a razão se esforça em entender. É isso. Tudo o que podemos chamar de "A sublime graça dos cinco sentidos". Sensibilidade é o olhar vago atrás da cortina enquanto chove lá fora. É olhar para o céu e admirar a beleza da noite que se esconde atrás da luz do dia. Sensibilidade é a palavra degustada com exagero de açúcar. Sensibilidade é riso e choro. Um abraço um beijo no rosto, o sorriso de quem se gosta. O despertar da vida. Estado mais puro e admirável e alvo e transparente. O que nos acalenta o espírito. É o alto índice de amor ao próximo. Amor exacerbado, destes que molham, encharcam, transbordam, inundam e faz de tudo uma simples jangada que navega à deriva, em seus mares que também podemos chamar de felicidade. Um Carinho, um gesto humano. É o transporte mais seguro para o mundo das idéias, onde caem por terra todos os pressupostos, todos os rótulos. Sensibilidade é caridade, que também é amor. Sentir na pele o gosto de viver;  reconhecer a inconfundível sonoridade dos passos da pessoa amada. É o afago suplicado através do silêncio e, mais do que isso, é o ato de compreender e atender a esta súplica. É o puro tato do abraço. O que tem poder suficiente para imortalizar e eternizar o instante. É a forma mais simples e complexa que resulta da fusão da emoção com a intuição.

Dai-nos Senhor a sensibilidade Vossa. A cada dia!



Renato Marques

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ausência




"Socorro, eu já não sinto nada, nada"
Arnaldo Antunes


Ele tem visto tudo isso muito medíocremente... o dia-a-dia, as horas, a vida.
Tudo muito sofrível. Seu Status quo. Tudo para ele era tédio,  desânimo, desassossego.
Desesperado, ele segue os passos desta vida que é dura. Desde pequeno aprendeu a conviver com as marcas de ferro quente da realidade nas costas.
Segue com o passo lento, Os olhos baixos, curvado, com sua trouxa na mão.
Trazia consigo apenas uns versos desalinhados no caderno e um outro preso na garganta.
Sentia que tudo lhe faltava: Amor, saudade, raiva, tristeza, mágoa.
Que dizer daquilo tudo? Morte? Cansaço? Mudança?
O que dizer de tudo isso? Não sabia como responder.
Sentia-se em um universo paralelo. Sentia a sua alma ausente, a sua vida ausente, e a sua presença ausente.
De fato, o amor, o ódio e outros sentimentos afligem o homem.
Mas não há nada que causa mais dano do que a falta de motivação.
Continuou caminhando, mas não conseguiu fechar os olhos, fugir da realidade.




Renato Marques

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Narrador intruso

E você, leitor, o que espera deste blogue?

Lágrimas, soluços ou risos? Felicidade?
Quem sabe uma dor, um sentimento ou, ainda, apenas uma narrativa descontraída.
Talvez uma citação bíblica, algum vestígio de vida, ou a própria vida, ou qualquer coisa que se chame fuga da realidade.
Uma palavra de conforto, uma oração.

Paz ou guerra? Bem que poderia ser.

Diga-me, leitor! Por que tu vens?
Procura um amigo, um ente querido? Um amor que se foi?
Veio achar um personagem... herói ou anti-herói? Aqui não tem Macunaíma nem Simão Botelho.

Responda a ti mesmo, você que lê, pois esta é a tua dúvida.
A mim não interessa. Talvez procure o que quer e encontre o que não quer.
Talvez não queira nada, mas acabe encontrando tudo.
Liricidade, céu nublado, Renato Marques, opinião, drama,  conto, conceito, contemporaneidade, ódio e amor, crítica. Interrogação?

Talvez encontre, mas não por mim.
Deixo-te apenas letra e sintaxe, formando estrofes ou parágrafos.

Cabe somente a ti encontrar o que quiser encontrar ou não. O significado é um problema seu.


Best whishes,

Narrador intruso.




Renato Marques

terça-feira, 17 de agosto de 2010

I'm down




"Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! "
Alvaro de Campos

Des
Anima
Do...

De
Existindo...

O pe
so do mundo...

Um ter
so de tudo.

Por
que tu
do não acaba

Por
que tu
Don't termina

Do
not
ava

Do
not
tinha

To Li
vê a vida...

Down.


Renato Marques

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O fim

Fazia duas horas que estava ali, sentado, com os olhos pregados na amarela folha de prova. Marcou a última questão e sorriu consigo, motivado, esperançoso. "Enfim terminei", disse a si mesmo.

E não terminara de qualquer forma. Além do alívio, sentiu um radiante orgulho: "terminei  com êxito", pensou. Dominava a Matemática, a Física; era graduado em Química. Na escola, era um dos melhores alunos em Geografia e História. Um de seus hobbies era discutir filosofia com seus amigos. Era brilhante! "Serei aprovado neste processo seletivo facilmente", pensou mais uma vez.

No entanto, havia agora um impasse. Apesar de todas estas qualidades, tinha um enorme problema com redações, conquanto fosse um assíduo leitor. lembrou do tempo do colégio, das aulas de português; lembrou-se de todas as situações em que era obrigado a escrever estes textos, tendo que gastar a maior parte do dia para ter uma idéia e, não bastasse todo este tempo para obtê-la, tinha de ficar mais duas horas para organizar as palavras, os parágrafos... Organizar tudo em perfeita ordem para formar o texto.

E corria o tic-tac do relógio de parede. Começou a suar frio, quando percebeu que o seu tempo estava se esgotando. Restava apenas uma hora. As mãos tremiam. O ar faltava. Já se sentia tão angustiado quanto Luiz da Silva, seu Luizinho, personagem de um Romance que leu recentemente, escrito por Graciliano Ramos. "Me preparei tanto para concorrer a esta vaga de emprego nesta multinacional... Será que tudo irá por água abaixo só por causa de uma dissertação?", indagou.

Enfim uma idéia. Lembrou-se de uma reportagem do Jornal da Globo, que assistiu na noite anterior. Mão e caneta começaram a trabalhar em uma união admirável, como se fossem um. A folha em branco logo foi ganhando a cor azul, da tinta. Letra, palavra, oração, período, parágrafo. Sintaxe perfeita! A gramática sorria dentro daquele texto. Missão cumprida e comprida! Quarenta e cinco linhas. Escolheu como título o nome que representava para ele a parte mais esperada daquele texto:

O fim.


Renato Marques

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Saudade














"Saudade é o inferno dos que perderam, 
é a dor dos que ficaram para trás, 
é o gosto de morte na boca dos que continuam..."
(Pablo Neruda) 









Andava cabisbaixo, taciturno, pelo mundo.
Não via a vida em torno de si.
O ar pesava nos pulmões. A mente seguia uma idéia fixa, um ideal.
Desdenhava o cantar dos pássaros, o Sol radiante do meio-dia.
"Os seus olhos... Eles é que são belos", pensou.
Fez uma breve reflexão sobre a sua vida. Tomou como verdade incontestável o fato de que a sua presença, para ele, era o principal determinante de tudo aquilo que o faz sorrir.
Percebeu que desde o momento em que a conheceu, tudo mudou, tudo fez sentido.
De repente, uma lágrima de saudade.
Em seguida, um aperto no coração, a ausência de quem se adora.
Sentiu a sensação se que tudo o que vivera ao lado dela tinha sido um sonho... O mais belo de todos... E que fora desperto deste sonho contra a sua vontade.
Ela se foi. Eis a dura e amarga realidade.
Agora, sentia pesar sobre os teus ombros a falta, a angústia, a morte que cantava os poetas ultrarromânticos.
Mas continuou, andando cabisbaixo, taciturno, pelo mundo.
Não havia vida em torno de si.
Não havia cantar de pássaros nem o Sol radiante do meio-dia.
Não havia mais sorrisos pois não havia quem os determinasse.
"Os seus olhos... Eles é que eram belos", pensou.










quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A tua voz




Trazia qualquer coisa que se pode chamar de Paz. Ainda está em meus ouvidos, falando da sua vida, dos teus problemas.

Do seu instante de febre e das suas alegrias me falava.

Ecoou em meu quarto, a tua voz. Sem pedir licença, invadiu minha casa, meu pequeno mundo, as minhas orações. Dominou as minhas inseguranças, meus medos, dissipou o meu ódio. Passou pela cozinha, visitou a minha irmã. Deu voltas em meus ouvidos e dormitou na minha mente.

Senti a sua presença leve e comovente através do som do teu riso. A força da tua expressão é o que te fez presente e deu vida a esta noite morta. O triste tom suplicado de um Si menor engraçado e franco atravessou quilômetros de distância... e me envolveu.

Como duas crianças, os meus ouvidos receberam este presente encantado que foi responsável por tudo isso:

A tua voz.


Renato Marques

sábado, 31 de julho de 2010




"Pra fazer todo homem acordar
Cada braço lutar
Cada rosto sorrir,
Pra fazer a ciranda girar,
Cada mão se empenhar em um só construir."




Diversas vezes, julguei este mundo indigno, a vida que se vive, a humanidade que se revela vil.
Mais de uma vez, voltei para casa indignado com tudo o que se vê nas ruas, nos jornais, nas praças, nas calçadas.
Muitas vezes disse comigo " Não vale a pena lutar! Tudo deve ir de mal a pior. É só questão de tempo. Pouco tempo, inclusive."

Contudo, há algo na humanidade que me deixa perplexo. Existe uma coisa que eu  talvez não saiba muito bem o que é, que me deixa deslumbrado, que me acolhe, acalenta. Tranquiliza.

Hoje, descobri que esta coisa divina que o ser humano traz consigo é a força de acreditar no amanhã. A força de poder lutar continuamente contra tudo o que se vê, de almejar algo melhor, criar um mundo feliz.

Às vezes, quando eu paro para olhar o mundo em minha volta, me lembro de uma canção da minha infância, que me deixava muito triste quando eu a ouvia e ainda faz brotar algumas lágrimas em meus olhos:


Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos número zero



Lembro que para muitas crianças a letra desta música era uma letra alegre, engraçada, tal qual a casa que é cantata na canção. Mas para mim sempre foi uma letra que me não me inspirasse nada mais além de tristeza.
O mundo, às vezes, me parece esta casa, triste, sem cor, sem paredes, sem teto, sem um leito de repouso... Não oferece ao menos chão, para permanecemos de pé.
Todavia, descobri que cada um de nós somos capazes de nos tornar arquitetos desta casa. Fazê-la tornar-se essência do nosso trabalho. Precisamos dar vida a esta casa imaterial. Fazer dela abrigo, encanto e Paz.

Desejo que, cada vez mais, nos tornemos os arquitetos desta casa.
E que possamos construí-la na Rua dos bobos de nossa mente, pois é lá que nasce toda inocência, toda, esperança, toda alegria.





"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos mudar
Coragem para modificar as que podemos
e Sabedoria para distinguir umas das outras.
Hoje e sempre. Amém."


Renato Marques

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Certeza





Hoje pensava na distância em que os separava, enquanto lento os ponteiros dos relógios caminhavam entre círculos.
Todavia, não se sentiu triste e, em seu coração, possuido pela esperança, exclamou:
"Amanhã é sexta feira!"
Na mesma medida em que o tempo corria, sentia cada vez mais visível em si a vontade de estar ao lado dela... dedicar palavras doces e dotadas do mais sincero sentimento que me abranda o peito.
Hoje sentiu que a sua alegria era que a distância que os separa não era maior que o laço que  lhes unia.
E que o amor que devotava multiplicava-se a medida em que as horas passavam.
Pensou consigo: "Portanto, já não choro mais pelas horas lentas, que se arrastam, pois aprendi que cada segundo que passa conspira para a nossa felicidade."



Renato Marques

quinta-feira, 22 de julho de 2010






"O amor é um menino doidinho e malcriado, que, quando alguém intenta refreá-lo, chora, escarapela, esperneia, escabuja, morde, belisca e incomoda mais que solto e livre; prudente é facilitar-lhe o que deseja, para que ele disso se desgoste; soltá-lo no prado, para que não corra; limpar-lhe o caminho, para que não passe: acabar com as dificuldades e oposições, para que ele durma e muitas vezes morra. O amor é um anzol que, quando se engole, agadanha-se logo no coração da gente, donde, se não é com jeito destravado, por mais força que se faça mais o maldito rasga, esburaca e se profunda. Portanto, muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua, e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos, parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. "



Macedo, Joaquim Manuel de in. A moreninha