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sábado, 31 de julho de 2010




"Pra fazer todo homem acordar
Cada braço lutar
Cada rosto sorrir,
Pra fazer a ciranda girar,
Cada mão se empenhar em um só construir."




Diversas vezes, julguei este mundo indigno, a vida que se vive, a humanidade que se revela vil.
Mais de uma vez, voltei para casa indignado com tudo o que se vê nas ruas, nos jornais, nas praças, nas calçadas.
Muitas vezes disse comigo " Não vale a pena lutar! Tudo deve ir de mal a pior. É só questão de tempo. Pouco tempo, inclusive."

Contudo, há algo na humanidade que me deixa perplexo. Existe uma coisa que eu  talvez não saiba muito bem o que é, que me deixa deslumbrado, que me acolhe, acalenta. Tranquiliza.

Hoje, descobri que esta coisa divina que o ser humano traz consigo é a força de acreditar no amanhã. A força de poder lutar continuamente contra tudo o que se vê, de almejar algo melhor, criar um mundo feliz.

Às vezes, quando eu paro para olhar o mundo em minha volta, me lembro de uma canção da minha infância, que me deixava muito triste quando eu a ouvia e ainda faz brotar algumas lágrimas em meus olhos:


Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos número zero



Lembro que para muitas crianças a letra desta música era uma letra alegre, engraçada, tal qual a casa que é cantata na canção. Mas para mim sempre foi uma letra que me não me inspirasse nada mais além de tristeza.
O mundo, às vezes, me parece esta casa, triste, sem cor, sem paredes, sem teto, sem um leito de repouso... Não oferece ao menos chão, para permanecemos de pé.
Todavia, descobri que cada um de nós somos capazes de nos tornar arquitetos desta casa. Fazê-la tornar-se essência do nosso trabalho. Precisamos dar vida a esta casa imaterial. Fazer dela abrigo, encanto e Paz.

Desejo que, cada vez mais, nos tornemos os arquitetos desta casa.
E que possamos construí-la na Rua dos bobos de nossa mente, pois é lá que nasce toda inocência, toda, esperança, toda alegria.





"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos mudar
Coragem para modificar as que podemos
e Sabedoria para distinguir umas das outras.
Hoje e sempre. Amém."


Renato Marques

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Certeza





Hoje pensava na distância em que os separava, enquanto lento os ponteiros dos relógios caminhavam entre círculos.
Todavia, não se sentiu triste e, em seu coração, possuido pela esperança, exclamou:
"Amanhã é sexta feira!"
Na mesma medida em que o tempo corria, sentia cada vez mais visível em si a vontade de estar ao lado dela... dedicar palavras doces e dotadas do mais sincero sentimento que me abranda o peito.
Hoje sentiu que a sua alegria era que a distância que os separa não era maior que o laço que  lhes unia.
E que o amor que devotava multiplicava-se a medida em que as horas passavam.
Pensou consigo: "Portanto, já não choro mais pelas horas lentas, que se arrastam, pois aprendi que cada segundo que passa conspira para a nossa felicidade."



Renato Marques

quinta-feira, 22 de julho de 2010






"O amor é um menino doidinho e malcriado, que, quando alguém intenta refreá-lo, chora, escarapela, esperneia, escabuja, morde, belisca e incomoda mais que solto e livre; prudente é facilitar-lhe o que deseja, para que ele disso se desgoste; soltá-lo no prado, para que não corra; limpar-lhe o caminho, para que não passe: acabar com as dificuldades e oposições, para que ele durma e muitas vezes morra. O amor é um anzol que, quando se engole, agadanha-se logo no coração da gente, donde, se não é com jeito destravado, por mais força que se faça mais o maldito rasga, esburaca e se profunda. Portanto, muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua, e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos, parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. "



Macedo, Joaquim Manuel de in. A moreninha

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O que faz bem ao coração




No último fim de semana, estava eu a arrumar a organização da minha desordem, quando achei uma caixa, onde guardo uma porção de coisas que eu tenho o maior orgulho de tê-las guardado.

Despejei as coisas em cima da cama e de súbito me veio à mente as todas as belas lembranças que provam que a vida é, de fato, um dom de Deus.

Há nesta caixa uma pouco de tudo: Cartas, fotografias, cartões de natal, pequenas lembranças... muitas coisas que me levaram e me levam ao passado e cada uma delas trazia uma face amiga, com quem eu tive o prazer de sorrir muito ou derramar algumas lágrimas , sejam elas de felicidade ou de tristeza.

Escrevendo este texto ocorreu-me a idéia de chamar esta caixa (uma simples caixa de sapatos, de papelão mesmo) de nada mais nada menos de Coração, pois, o que é o nosso coração senão uma pequena caixinha onde guardamos as lembranças de coisas ou pessoas que nos marcaram?

Sabe-se que, o coração, ainda que para alguns pareça ser tão pequeno, comporta tudo que há de bom e o que há de ruim:  felicidade, amor, ódio, rancor, inveja, esperança, fé, ambição... todas estas coisas se pode achar no coração de um ser humano. Não digo que no meu coração real há só coisas boas, mas nesta minha velha caixa de sapatos, neste coração artificial, imaginário e singular, só encontrei coisas boas, que fizeram brotar em meus olhos não uma, mas várias lágrimas de saudade e felicidade.

Nos vivemos em tempos modernos, em dias que não  existe tempo para um "bom-dia!", para um café da manhã com a família, para um "Eu te amo, mãe!"... não há mais um pedido de desculpe-me quando se pisa no pé de alguém no ônibus lotado... não se há mais "por favor", "com licença", "obrigado", "por nada"... Porém acontece que são estas coisas, que na sua simplicidade, preservam o nosso coração limpo, jovem e sensível. enchê-lo de coisas deste tipo para que se viva uma vida mais feliz.

Pois bem. O objetivo de eu abordar este assunto me é propício para, no dia de hoje, 20/07/2010 - Dia do Amigo - fazer uma homenagem a todos que contribuíram e contribuem a trazer todas estas coisas boas que trago em meu âmago. Quero dizer a  todos vocês que sou muito grato por estarem ao meu lado, sempre presentes em minha vida, em meu viver, em minha mente e em meu coração.

Para melhor homenageá-los, quero dividir com vocês uma carta que uma amiga minha, há uns dois anos atrás escreveu para mim e alguns outros amigos. Um Texto que muito belo. Segue abaixo:



"O que eu sinto hoje é saudade!

Um dia ouvi falar que amigos de verdade não se separam, apenas seguem caminhos diferentes. Eu não sei se essa frase, de fato, é verdadeira, mas imagino que quem a fez não pensou na saudade que sentimos quando precisamos "deixar" nossos amigos.

Eu sinto muita falta de vocês. Muita, mesmo. Falta de nossas conversas, de nossas risadas, de nossas reclamações e de nossos sonhos.

Saudade de suas histórias em meus ouvidos, dos seus ouvidos em minhas histórias.

E das nossas brincadeiras? Nossas confissões. A cumplicidade envolvida e cultivada.

A verdade é que nunca precisamos de uma razão para estarmos juntos. Simplesmente estávamos e é por isso que posso chamá-los de amigos.

Não sei quando vamos nos ver novamente, só sei que quando nos encontrarmos todos estarão em uma bem melhor.

Pessoas boas vencem.

Contudo, ainda espero que vocês não esqueçam:

Sinto Saudades!

Nete, Rê, Jú, Mona, Ander, Fê, Sô!

Gosto absurdamente de vocês!

Um Grande Beijo!"



Finalmente, com este texto, quero agradecê-los mais uma vez. Sem vocês, este texto não existiria, minha caixa de lembranças estaria vazia, meu coração viraria pedra. Obrigado a cada um de vocês, uns mais próximos, outros mais distantes.

Enfim, FELIZ DIA DO AMIGO!



Renato Marques




terça-feira, 20 de julho de 2010

Te espero



Te espero como
Quem não quer outra alternativa,
Não quer ter outra opção.
No rumo que se segue a vida,
Não quero ter outra direção.


Renato Marques

segunda-feira, 19 de julho de 2010

(...)

As frases que me deixam inquieto
Calam-se, mas gritam em meu peito.
Pedem oportunidade... pedem LIBERDADE!

Renato Marques

domingo, 18 de julho de 2010

Palavras






"Penetra surdamente no reino das palavras. 
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. 
(...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
"Trouxeste a chave?" "
Carlos Drummond de Andrade




As Palavras têm o poder de transformar a fantasia em realidade. De guardar o presente até depois dele virar passado. Enfeita o feio para que se confunda com o belo e, assim, bonito nos pareça. Para fazer da dúvida, certeza. Para trazer aos olhos, beleza.

As Palavras fazem dos sonhos realidade e do nosso dia-a-dia mero devaneio.


Renato Marques

sábado, 17 de julho de 2010

Prefiro te chamar de Você





"Aos meus lábios, aos meus olhos
Do silêncio imponho a lei;
Mas lá onde a dor se esquece,
Onde a luz nunca falece,
Onde o prazer sempre cresce,
Lá saberás se te amei!"
Gonçalves Dias





Não posso, de maneira nenhuma, citar teu nome aqui. Até por uma questão ética, de defender a quem se ama, por zelo, e não escandalizar a quem se adora. Não, não posso, porém, seria tão bom se você soubesse o quanto me faz bem... Mal nos conhecemos.
Todavia, sua simplicidade, humildade, teu gesto humano, tua face, teus olhos. Teu jeito de admirar a vida, seu semblante, tua fala... tudo isso me arrebata ao que eu costumo chamar "estado mais transcendental de um ser humano".

Coisa que as outras pessoas chamam de Amor.

Não posso, aqui, fazer qualquer alusão breve referente ao teu nome, ou referente a algo que te identifique...

Que este sentimento fique no anonimato... pelo menos por enquanto.
E que as palavras, caso haja a oportunidade, em um contexto cabível, sejam ditas.

Por hora, vou te chamando de você.


Renato Marques

Esta Velha




  Esta velha angústia,  
   Esta angústia que trago há séculos em mim,  
   Transbordou da vasilha,  
   Em lágrimas, em grandes imaginações,  
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,  
   Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. 


   Transbordou.
   Mal sei como conduzir-me na vida
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
   Se ao menos endoidecesse deveras!
   Mas não: é este estar entre,
   Este quase,
   Este poder ser que...,
   Isto. 

   Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
   Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
   Estou doido a frio,
   Estou lúcido e louco,
   Estou alheio a tudo e igual a todos:
   Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
   Porque não são sonhos.
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha infância perdida!
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
   Que é do teu menino?  Está maluco.
   Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
   Está maluco.
   Quem de quem fui?  Está maluco.  Hoje é quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
   Por exemplo, por aquele manipanso
   Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
   Era feiíssimo, era grotesco,
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
   Júpiter, Jeová, a Humanidade —
   Qualquer serviria,
   Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? 

   Estala, coração de vidro pintado!


Por Fernando Pessoa na voz de Álvaro de Campos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Te vejo





"Via você no ontem , no hoje, no amanhã...


Mas não via você no momento. 


Que saudade..."
Mário Quintana


Todos os dias te vejo.
Passo a ponte. Passam-se os dias, os carros, os pássaros, o carteiro - Todos os dias.
E todos os dias, te vejo.
Você não passava, não vinha
ou voltava,
mas, ainda assim,
Te via.
Sempre.
Todos os dias.
E ainda te vejo.




Renato Marques

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Antes de dormir



Quando você for dormir
Não se esqueça de lembrar:
Deixa o pensamento ir
Lá em casa, me encontrar.

Renato Marques

quarta-feira, 14 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Amizade




Amizade?
Ah! é aquilo que nos faz falar sozinho, que nos deixa com cara de paisagem!
Uma semente que não vê a hora, não se aguenta de esperar o tempo necessário que a natureza lhe impõe para brotar...
É o riso desmedido, a lágrima enxugada, a loteria  que todos os dias anuncia-nos como ganhadores.
Há no mundo quem pense que o melhor da amizade é quando o objeto dela estão presentes. O melhor momento é quando eles, os amigos, já se foram, e eu me levo a pensar pasmado, descrente do quanto ela é capaz de me fazer feliz. Quando se dorme pensando, quando se acorda pensando, quando se vê pensando, e quando se vive pensando nestes indivíduos tão singulares e desmedidos com a felicidade. 

Àqueles que eu tenho o privilégio de chamar de meus amigos.

XUCRAN!!!


Renato Marques

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sobre o coração




"...Estala, coração de vidro pintado!"
F. Pessoa
Terás tu por acaso a sensibilidade para tocá-lo?
Sede frágil. Segure-o com mãos de porcelana
E frágeis como ele.
Sede frágil! Não vês pode esvanecer?
Leve. Sede leve com as mãos.
Leve-o com mãos mornas. Não sejas fria.
É preciso acalentá-lo. Bate descompassado
E já não pode sorrir.
Pulsa sofregamente. É preciso lavar-lhe as feridas
Que sofrera ao longo da vida...
Guarda dentro de si algum rancor,
Mas o que o faz sofrer é a vontade de perdoar.


Renato Marques

quinta-feira, 8 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

Sapato Apertado



Às vezes angustia. É como precisar calçar um sapato que não lhe cabe mais. Sentir o couro lhe estourar bolhas, rasgar a pele, manchar a meia de sangue e ainda assim persistir, continuar caminhar. É como sentir que tudo se resume ao apertado, ao pequeno, ao impróprio demais. É como se de repente o sol de dentro saísse rua afora e se escondesse em algum lugar jamais conhecido.
Às vezes angustia. Na imensidão do mundo, ainda me falta espaço. Conhecimento tem hora que prende asas, sufoca. Há momentos que, mesmo diante de tanto chão, muros de notícias me coagem, me espremem, me aprisionam. Assustam! Então, tudo que desejo é lavar a alma. E a água vem. De enxurrada, de várias fontes-faces. É um cenário dolorido, é como ver o coração partido, ver o amor jorrar. Sofrido.
O silêncio cala a alma contrita. Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície.
Subi no ônibus e logo mergulhei na primavera de Clarissa. Pétalas amarelas, azuis. Um piano de fundo, uma música sem coesão a tocar, o avião a cortar o céu. Uma conversa infantil, doce, insistente. Fechei o livro. A voz suave continuava a falar, olhei para o lado. Parecia uma pintura. Olhos redondos, negros e vivos, num rosto marrom forte. Perguntava coisas do mundo à mãe. Não tinha mais do que quatro anos.
Voltei a ler, ele a falar. Espichei o pescoço, desviando da mulher recém-chegada, lá estava ele grudado na janela. Voltei à Clarissa. Minutos depois percebi que minha cabeça não estava mais ali, guardei a companhia da menina dentro da bolsa. Ele olhava atento cada gesto meu. Sorrimos. Os dentes pequeninos e alinhados brincavam com um chiclete e ao mesmo tempo afastavam as bochechas num alargar de lábios. O retrato era, certamente, uma poesia. Meu coração acalmou.
Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície, mas há quem encontre o sol em terrenos inférteis e oferte aos carentes de alegria.
Conhecimento tem hora que prende asas, mas agora eu posso buscar a ]ausência dele em sua poesia.
Por Natália Oliveira, melhor amiga minha e irmã que minha mãe não concebeu.

A Vida



A vida, em muitos momentos, não me sorriu, ainda que as evidências de uma felicidade tenham sido tão claras.
Mas viver é isso! lutar constantemente, sem desistir, mesmo quando tudo parece estar perdido.
Muitas lágrimas já rolaram e tenho medo só de imaginar quantas ainda terão de vir. Amigos que se foram, amores que partiram, desilusões, mágoas, tristezas. De tudo isso, o que resta é a saudade, a lembrança de um tempo bom... que não volta nunca mais. Enfim, viver é isto. Momentos de felicidade que são tão efêmeros. É essa efemeridade que a torna tão dolorosa, tão difícil. 

Quero uma felicidade permanente, sorrisos em lábios que me beijem. Quero, não a ausência de problemas, mas as mãos que se unem para resolvê-lo. Quero um poema que cante a eterna presença daqueles que se foram. Quero a vida, a vida bem sentida. Quero as lágrimas que suplicam um afago acessível. Abraços demorados, gargalhadas que nos levem ao chão. Quero amor eterno, destes que não se encontram mais. Quero amor, destes que não se compram nem se vendem, mas que se recebe de graça e pela graça de uma doação sincera, sensível e simples. Eis o meu ideal de Vida.

Um dia encontrarei esta Vida.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Passos

Andava, com um desassossego ordenado, na Av. Santo Amaro, Sombria avenida que não acaba mais. Cinco para as oito da noite. Mãos nos bolsos, boné na cabeça, olhar tão cabisbaixo quanto a postura. E eu seguia. Pensativo, transeunte, passos compassados, mas sem pressa nenhuma. Trazia comigo, na ideia, uma inquietação mansa, ainda que perturbadora.

Um trecho escuro da Av. Santo Amaro. E seguia.

Seguia também meu pensamento. Seguia-te! Não nesta caminhada singular, não na oculta e obscura avenida, mas na lembrança da tua imagem, que me arrebatava para longe deste mundo físico e dessa vida líquida, que não me pertence.

(...)

Passo por transeuntes... Não me tratam por desdém, mas me encaram com ar de superioridade marginal, andam em sentido contrário, olham para trás, param em frente ao monte de lixo. Finjo uma desatenção despreocupada e inocente, ainda que sagaz em sua natureza; sigo até o cruzamento. Sinal vermelho. A mente transitando entre você e a questão dos passantes que me encararam a pouco. Chego até a faixa de pedestres. Sinal vermelho. Ainda.

De súbito, me vem a ideia de voltar, voltar sem medo. E te esperar.

Meia volta. E volto.

Cruzo mais uma vez com um dos andarilhos. Este, por sua vez, mal trapilho, mal encarado, negro como a noite: meu irmão de cor. Olha para mim com o mesmo olhar fuzilador de antes, e diz:

- E ai meu!

- Opa. - respondi, com um breve aceno de cabeça e rápido olhar, carregado de desdém.

- Qual é a cena, meu?!

- O que?

- Qual que é a cena?! Andano ai, pra lá, pra cá.

- Esqueci um livro na escola.

- Hã...! Firmeza então.

- Falou. - Cumprimentei o fulano com um breve sinal de positivo e segui o curso como se não tivesse dado pelo ocorrido. Tomado pela mesma taciturnidade, mãos nos bolsos, boné na cabeça, olhos cabisbaixos, passos lentos, ainda que compassados. E seguindo, com a mente, a tua imagem.