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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Passos

Andava, com um desassossego ordenado, na Av. Santo Amaro, Sombria avenida que não acaba mais. Cinco para as oito da noite. Mãos nos bolsos, boné na cabeça, olhar tão cabisbaixo quanto a postura. E eu seguia. Pensativo, transeunte, passos compassados, mas sem pressa nenhuma. Trazia comigo, na ideia, uma inquietação mansa, ainda que perturbadora.

Um trecho escuro da Av. Santo Amaro. E seguia.

Seguia também meu pensamento. Seguia-te! Não nesta caminhada singular, não na oculta e obscura avenida, mas na lembrança da tua imagem, que me arrebatava para longe deste mundo físico e dessa vida líquida, que não me pertence.

(...)

Passo por transeuntes... Não me tratam por desdém, mas me encaram com ar de superioridade marginal, andam em sentido contrário, olham para trás, param em frente ao monte de lixo. Finjo uma desatenção despreocupada e inocente, ainda que sagaz em sua natureza; sigo até o cruzamento. Sinal vermelho. A mente transitando entre você e a questão dos passantes que me encararam a pouco. Chego até a faixa de pedestres. Sinal vermelho. Ainda.

De súbito, me vem a ideia de voltar, voltar sem medo. E te esperar.

Meia volta. E volto.

Cruzo mais uma vez com um dos andarilhos. Este, por sua vez, mal trapilho, mal encarado, negro como a noite: meu irmão de cor. Olha para mim com o mesmo olhar fuzilador de antes, e diz:

- E ai meu!

- Opa. - respondi, com um breve aceno de cabeça e rápido olhar, carregado de desdém.

- Qual é a cena, meu?!

- O que?

- Qual que é a cena?! Andano ai, pra lá, pra cá.

- Esqueci um livro na escola.

- Hã...! Firmeza então.

- Falou. - Cumprimentei o fulano com um breve sinal de positivo e segui o curso como se não tivesse dado pelo ocorrido. Tomado pela mesma taciturnidade, mãos nos bolsos, boné na cabeça, olhos cabisbaixos, passos lentos, ainda que compassados. E seguindo, com a mente, a tua imagem.

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