Total de visualizações de página

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ausência




"Socorro, eu já não sinto nada, nada"
Arnaldo Antunes


Ele tem visto tudo isso muito medíocremente... o dia-a-dia, as horas, a vida.
Tudo muito sofrível. Seu Status quo. Tudo para ele era tédio,  desânimo, desassossego.
Desesperado, ele segue os passos desta vida que é dura. Desde pequeno aprendeu a conviver com as marcas de ferro quente da realidade nas costas.
Segue com o passo lento, Os olhos baixos, curvado, com sua trouxa na mão.
Trazia consigo apenas uns versos desalinhados no caderno e um outro preso na garganta.
Sentia que tudo lhe faltava: Amor, saudade, raiva, tristeza, mágoa.
Que dizer daquilo tudo? Morte? Cansaço? Mudança?
O que dizer de tudo isso? Não sabia como responder.
Sentia-se em um universo paralelo. Sentia a sua alma ausente, a sua vida ausente, e a sua presença ausente.
De fato, o amor, o ódio e outros sentimentos afligem o homem.
Mas não há nada que causa mais dano do que a falta de motivação.
Continuou caminhando, mas não conseguiu fechar os olhos, fugir da realidade.




Renato Marques

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Narrador intruso

E você, leitor, o que espera deste blogue?

Lágrimas, soluços ou risos? Felicidade?
Quem sabe uma dor, um sentimento ou, ainda, apenas uma narrativa descontraída.
Talvez uma citação bíblica, algum vestígio de vida, ou a própria vida, ou qualquer coisa que se chame fuga da realidade.
Uma palavra de conforto, uma oração.

Paz ou guerra? Bem que poderia ser.

Diga-me, leitor! Por que tu vens?
Procura um amigo, um ente querido? Um amor que se foi?
Veio achar um personagem... herói ou anti-herói? Aqui não tem Macunaíma nem Simão Botelho.

Responda a ti mesmo, você que lê, pois esta é a tua dúvida.
A mim não interessa. Talvez procure o que quer e encontre o que não quer.
Talvez não queira nada, mas acabe encontrando tudo.
Liricidade, céu nublado, Renato Marques, opinião, drama,  conto, conceito, contemporaneidade, ódio e amor, crítica. Interrogação?

Talvez encontre, mas não por mim.
Deixo-te apenas letra e sintaxe, formando estrofes ou parágrafos.

Cabe somente a ti encontrar o que quiser encontrar ou não. O significado é um problema seu.


Best whishes,

Narrador intruso.




Renato Marques

terça-feira, 17 de agosto de 2010

I'm down




"Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! "
Alvaro de Campos

Des
Anima
Do...

De
Existindo...

O pe
so do mundo...

Um ter
so de tudo.

Por
que tu
do não acaba

Por
que tu
Don't termina

Do
not
ava

Do
not
tinha

To Li
vê a vida...

Down.


Renato Marques

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O fim

Fazia duas horas que estava ali, sentado, com os olhos pregados na amarela folha de prova. Marcou a última questão e sorriu consigo, motivado, esperançoso. "Enfim terminei", disse a si mesmo.

E não terminara de qualquer forma. Além do alívio, sentiu um radiante orgulho: "terminei  com êxito", pensou. Dominava a Matemática, a Física; era graduado em Química. Na escola, era um dos melhores alunos em Geografia e História. Um de seus hobbies era discutir filosofia com seus amigos. Era brilhante! "Serei aprovado neste processo seletivo facilmente", pensou mais uma vez.

No entanto, havia agora um impasse. Apesar de todas estas qualidades, tinha um enorme problema com redações, conquanto fosse um assíduo leitor. lembrou do tempo do colégio, das aulas de português; lembrou-se de todas as situações em que era obrigado a escrever estes textos, tendo que gastar a maior parte do dia para ter uma idéia e, não bastasse todo este tempo para obtê-la, tinha de ficar mais duas horas para organizar as palavras, os parágrafos... Organizar tudo em perfeita ordem para formar o texto.

E corria o tic-tac do relógio de parede. Começou a suar frio, quando percebeu que o seu tempo estava se esgotando. Restava apenas uma hora. As mãos tremiam. O ar faltava. Já se sentia tão angustiado quanto Luiz da Silva, seu Luizinho, personagem de um Romance que leu recentemente, escrito por Graciliano Ramos. "Me preparei tanto para concorrer a esta vaga de emprego nesta multinacional... Será que tudo irá por água abaixo só por causa de uma dissertação?", indagou.

Enfim uma idéia. Lembrou-se de uma reportagem do Jornal da Globo, que assistiu na noite anterior. Mão e caneta começaram a trabalhar em uma união admirável, como se fossem um. A folha em branco logo foi ganhando a cor azul, da tinta. Letra, palavra, oração, período, parágrafo. Sintaxe perfeita! A gramática sorria dentro daquele texto. Missão cumprida e comprida! Quarenta e cinco linhas. Escolheu como título o nome que representava para ele a parte mais esperada daquele texto:

O fim.


Renato Marques

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Saudade














"Saudade é o inferno dos que perderam, 
é a dor dos que ficaram para trás, 
é o gosto de morte na boca dos que continuam..."
(Pablo Neruda) 









Andava cabisbaixo, taciturno, pelo mundo.
Não via a vida em torno de si.
O ar pesava nos pulmões. A mente seguia uma idéia fixa, um ideal.
Desdenhava o cantar dos pássaros, o Sol radiante do meio-dia.
"Os seus olhos... Eles é que são belos", pensou.
Fez uma breve reflexão sobre a sua vida. Tomou como verdade incontestável o fato de que a sua presença, para ele, era o principal determinante de tudo aquilo que o faz sorrir.
Percebeu que desde o momento em que a conheceu, tudo mudou, tudo fez sentido.
De repente, uma lágrima de saudade.
Em seguida, um aperto no coração, a ausência de quem se adora.
Sentiu a sensação se que tudo o que vivera ao lado dela tinha sido um sonho... O mais belo de todos... E que fora desperto deste sonho contra a sua vontade.
Ela se foi. Eis a dura e amarga realidade.
Agora, sentia pesar sobre os teus ombros a falta, a angústia, a morte que cantava os poetas ultrarromânticos.
Mas continuou, andando cabisbaixo, taciturno, pelo mundo.
Não havia vida em torno de si.
Não havia cantar de pássaros nem o Sol radiante do meio-dia.
Não havia mais sorrisos pois não havia quem os determinasse.
"Os seus olhos... Eles é que eram belos", pensou.










quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A tua voz




Trazia qualquer coisa que se pode chamar de Paz. Ainda está em meus ouvidos, falando da sua vida, dos teus problemas.

Do seu instante de febre e das suas alegrias me falava.

Ecoou em meu quarto, a tua voz. Sem pedir licença, invadiu minha casa, meu pequeno mundo, as minhas orações. Dominou as minhas inseguranças, meus medos, dissipou o meu ódio. Passou pela cozinha, visitou a minha irmã. Deu voltas em meus ouvidos e dormitou na minha mente.

Senti a sua presença leve e comovente através do som do teu riso. A força da tua expressão é o que te fez presente e deu vida a esta noite morta. O triste tom suplicado de um Si menor engraçado e franco atravessou quilômetros de distância... e me envolveu.

Como duas crianças, os meus ouvidos receberam este presente encantado que foi responsável por tudo isso:

A tua voz.


Renato Marques