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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O caso do vestido






— Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

— Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

— Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

— Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

— Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

— Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

— Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

— Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca:

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe.

 Mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

— Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

— Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

— Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

— Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

"Eu não amo teu marido,"
me falou ela se rindo.

"Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem."

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.



Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.



Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.




Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

"Dona," me disse baixinho,
"não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação."

"Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes."

"Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,

no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,

me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,

me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,

rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:

vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa

que recorda meu malfeito
de ofender dona casada

pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão."

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: "Mulher,

põe mais um prato na mesa."
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.







Carlos Drummond de Andrade

domingo, 19 de setembro de 2010

Desfecho













- Você voltará?
- Voltarei.
- Promete?
- Não Prometo. Não é necessário. Apenas voltarei.
- Por que não promete?
- Não me tem confiança? O que é uma promessa? Se me pede uma promessa é porque não me acredita.
- Desculpe-me, querido. É que nunca partiu para tão longe e como ficará distante por mais tempo do que de costume...

Ele a fitava rigorosamente, com um olhar frio, certeiro, mas ao mesmo tempo carregado de uma doce ternura. Enquanto ela, sôfrega, se esforçava em impedir que as lágrimas chovessem em seu rosto. Lá fora, atrás da janela, o dia triste e nublado observava os dois com olhos melancólicos. O tempo seguia a sua rota apenas dentro daquela casa, como se estivesse lutando para separá-los. Lá fora não. Tudo paralisara. As pessoas, a grama, os animais, o riacho, o entardecer.

E a vida.

O homem, seriamente, deixou que seus braços a enlaçassem, mas sem que os olhos desviassem. Ficaram ali, imóveis, desdenhando o relógio, enquanto era possível. Ela sempre melancólica; ele sempre grave, ainda que com o traço de dor na face. Um silêncio súbito pairava ao redor, observando os dois. Tudo era triste.

- Acredito em você. Sempre voltou e voltará. Sempre.
- Sempre.

Sempre.

Ela reclinou a cabeça e deixou que os lábios do rapaz fossem de encontro ao seu. Amavam-se muito, mas agora, com a dor da separação, sofriam à mesma medida que se amavam. O homem acariciou o rosto da mulher com as mãos, beijou-lhe a fronte, e partiu.

Sempre.

Ela deitou-se. Sentiu a solidão tomar conta de si. O vento dramático daquela tarde soprou pela porta para fazer-lhe companhia. Ela tremeu de frio e de tristeza. Um soluço. Não teria mais os afagos que tinha. À medida que os passos do homem avançavam pela estrada, o sol ia se despedindo, como se estivesse ditando o caminho, o destino dele.

 O mundo todo se resumiu em silêncio.


Ouvia-se apenas o som agudo das lágrimas, que pousavam no chão batido, umedecendo a terra vermelha e compondo triste sinfonia.

- Plim, plim, pilm...


Triste onomatopeia.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Suicídio





"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos 
Se eu morresse amanhã!"

(Álvares de Azevedo)


Antes da morte,
Que vida!
Devida sorte,
Maldita!
Andei sem norte,
Perdida!
Troquei por nada,
A vida.

domingo, 12 de setembro de 2010

Futuro










 "Terei um futuro?  Sem dúvida...  

    Ainda que pare de aqui a pouco... "

(Fernando Pessoa)




As linhas das palmas de minha mão não me dizem quem tu és.
Incógnita.


Caminharei, constante, passo-pós-passo,
Mas nunca poderei dizer de ti, a menos que já tenhas
Passado.


Mas, ainda assim, em mim, em nossas vidas, Guardamos
A sublime esperança, de encontrar-te atrás da cortina do
Destino.


Enquanto não vens, vou me divertindo com o presente,
Que te traz aos poucos,
Aos poucos goles, mililitros, pensando ter te 
Apanhado.


Te trago na idéia, como um ideal,
Ainda que tu sejas tão incerto, tão duvidoso
E, quem sabe, 
Trágico.






Renato Marques





terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sensibilidade




Sensibilidade é olhos nos olhos. Tudo aquilo que o coração sente e que a razão se esforça em entender. É isso. Tudo o que podemos chamar de "A sublime graça dos cinco sentidos". Sensibilidade é o olhar vago atrás da cortina enquanto chove lá fora. É olhar para o céu e admirar a beleza da noite que se esconde atrás da luz do dia. Sensibilidade é a palavra degustada com exagero de açúcar. Sensibilidade é riso e choro. Um abraço um beijo no rosto, o sorriso de quem se gosta. O despertar da vida. Estado mais puro e admirável e alvo e transparente. O que nos acalenta o espírito. É o alto índice de amor ao próximo. Amor exacerbado, destes que molham, encharcam, transbordam, inundam e faz de tudo uma simples jangada que navega à deriva, em seus mares que também podemos chamar de felicidade. Um Carinho, um gesto humano. É o transporte mais seguro para o mundo das idéias, onde caem por terra todos os pressupostos, todos os rótulos. Sensibilidade é caridade, que também é amor. Sentir na pele o gosto de viver;  reconhecer a inconfundível sonoridade dos passos da pessoa amada. É o afago suplicado através do silêncio e, mais do que isso, é o ato de compreender e atender a esta súplica. É o puro tato do abraço. O que tem poder suficiente para imortalizar e eternizar o instante. É a forma mais simples e complexa que resulta da fusão da emoção com a intuição.

Dai-nos Senhor a sensibilidade Vossa. A cada dia!



Renato Marques